Publicado por: socorrismo12d | 23 de Abril de 2010

“Uma lição à beira da estrada”

“ Não era suposto que ali estivesse naquele momento, àquela hora. Era mais tarde que o habitual. Luís conduzia ao mesmo tempo que conversava ao telemóvel, de auricular no ouvido. De repente, viu fumo e peças pelo ar e os seus olhos procuraram a origem do estardalhaço, e no mesmo instante viu um camião de transporte de viaturas, com vários carros em cima, num desnorte assustador, raspando em automóveis, destruindo tudo. Subitamente, Luís deixou de conseguir manter a conversa ao telemóvel, começou a gaguejar, a titubear, a não dizer coisa com coisa. «Já te ligo, já te ligo.»

Vários carros pararam, Luís Castro também parou o seu. Perguntou ao condutor de um jipe ao seu lado se estava bem. O homem, atordoado, acenou que sim com a cabeça. Dirigiu-se ao condutor do camião e viu que o homem parecia espreitar para debaixo do seu próprio veículo. Um segundo olhar permitiu-lhe concluir que não. O homem não espreitava. O homem tinha sido projectado e estava ali, de garganta e peito abertos. Havia sangue, muito sangue. Sangue a jorrar como a água jorra de uma mangueira. Luís Castro viu que um ferro também acertara na cabeça do homem, mas preocupou-se, sobretudo, com a garganta. «Estava tudo aberto.»

Luís nem pestanejou. Colocou-o de lado para que não sufocasse no próprio sangue, procurou mantê-lo consciente, ligou para o 112. As pessoas dos outros carros foram-se aproximando, primeiro com genuína vontade de ajudar, depois, ao verem o cenário, afastavam-se uns três ou quatro passos; algumas viravam costas, de mãos na cabeça. Luís ia conversando com o homem, que mal conseguia falar. Quando, do outro lado da linha, o técnico do 112 lhe pede uma descrição da vítima, Luís não soube bem o que fazer. «Por um lado, percebi que era essencial para eles que eu descrevesse o estado do homem, porque só assim poderiam enviar os meios apropriados. Por outro lado, como é que eu ia descrever o péssimo estado em que o homem estava diante dele? Ele não precisava de saber que estava todo rasgado, que tinha a garganta toda aberta… Eu podia afastar-me para falar sem ele ouvir, mas tinha as minhas mãos a taparem o buraco por onde saía imenso sangue. As minhas mãos eram o garrote possível naquele cenário. Se me afastasse durante muito tempo, ele podia esvair-se.»

O dilema durou segundos. Consciente da necessidade de descrever o estado do condutor, Luís afastou-se rapidamente, falou o mais depressa que pôde e voltou numa corrida para tornar a tapar o buraco por onde o homem se extinguia. Enquanto fazia tudo para o salvar, Luís Castro, jornalista, repórter da RTP, ausentava-se. Ele estava ali, mas, ao mesmo tempo, não estava. A sua memória transportou-o para aquele dia, em Angola, em que um soldado morreu mesmo à sua frente, esvaído em sangue, e ele nada pôde fazer para o ajudar. A sua cabeça levou-o para Angola e as suas mãos apertaram com mais força o sítio rasgado. «Eu não podia tornar a passar pelo mesmo. Eu não podia deixá-lo morrer.»

Dessa vez, em reportagem, Luís Castro lamentou nada saber de primeiros socorros, compreendeu a necessidade premente de aprender, ficou sempre a pensar: «E se? E se eu soubesse o que fazer? E se eu tivesse a mínima noção de cuidados primários? Teria conseguido salvar aquele homem, aquele soldado? Teria conseguido resgatar aquela vida em Angola? Percebi que era algo em que eu tinha de investir. Assim que cheguei a Portugal, fui ler muito sobre o assunto. Mais tarde, quando criámos os cursos de repórteres de guerra, eu e o José Carlos Ramalho fizemos uns módulos de primeiros socorros. E aí exercitei tudo aquilo que tinha aprendido na teoria. Acho que toda a gente devia saber o básico. Porque o básico pode ser a diferença entre a vida e a morte. Qualquer um de nós pode assistir não só a um acidente na rua com um desconhecido, mas a um mal-estar súbito de um familiar, a um afogamento, a um ataque cardíaco…e há coisas que se podem fazer rapidamente e que podem mesmo salvar uma vida.»

Com a memória a trazer-lhe flashes de Angola, Luís continuou a manter a vítima consciente e a fechar-lhe a carne com as mãos. Mas o sangue era cada vez mais e o jornalista pediu se alguém lhe trazia um pano para estancar. «Nesse momento, dois motoristas de caterpillars trazem-me um pano todo sujo…preto. Eu agradeci, mas antes estancar o sangue com as minhas mãos do que meter aquele foco de infecção naquela ferida aberta. Nisto, chegou uma senhora que disse: «Eu não sou médica mas já trabalhei para o INEM.» Foi então que conseguimos saber de onde ele era, conseguimos o número de telefone do patrão, ligámos-lhe e ele foi sempre impecável.» O homem que se esvaía só balbuciava: «Antes tivesse morrido. Antes tivesse morrido.» A consciência do prejuízo que o acidente causara estava a perturbá-lo mais do que o seu próprio estado. Estavam dados os primeiros indícios de que ali se encontrava um bom homem.

Entretanto, chegou também um bombeiro com uma caixa de primeiros socorros. E passado um bocadinho, ouvem-se as sirenes. E aí foi o alívio, a descompressão, a felicidade. «Senti naquele momento que talvez o homem se safasse. Senti que tinha ajudado, que podia realmente ter feito a diferença. E quando a equipa do INEM levantou a maca para o meter na ambulância, vi-o a procurar-me com o olhar. Ele estava tão mal, mas procurou-me e olhou-me nos olhos e eu senti que ele me agradecia.» Luís comove-se. Fica com os olhos brilhantes, prova de que, por muitas guerras que tenha coberto, por muitas tragédias a que já tenha assistido, não perdeu a capacidade de se emocionar. Luís engole em seco e recusa o epíteto de herói: «Não…aquilo não teve nada de heróico ou de corajoso ou de nobre. Foi instintivo, foi chegar e saber que tinha de fazer alguma coisa, foi agir. Ver um cenário daqueles não me choca absolutamente nada. Já vi corpos desmembrados, já vi muito sangue, já vi pessoas a morrerem nas minhas reportagens, e por isso aquilo não me impressionou. Mas compreendo que para a maioria das pessoas seja chocante, seja um cenário impossível de transpor. Algumas pessoas não conseguem ajudar, não podem. Não porque não queiram, mas porque não aguentam aquilo.»

Retirado de: Revista Selecções do Reader’s Digest (Março de 2010) – artigo “Heróis do dia-a-dia – Uma lição à beira da estrada”, Porto Salvo: Selecções do Reader’s Digest


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